A difícil equação entre mobilidade urbana, carro e poder

Mobilidade urbano tá em moda nos últimos anos. Mas, para boa parte dos brasileiros, ela somente foi apresentada, por conta da realização da Copa do Mundo de Futebol, realizada em 2014.

Na época, muito se falava sobre mobilidade urbana, bem como os investimentos em transporte público, ciclovias e outros meios de locomoção.

Quando, o assunto é transporte público, cidadãos das grandes cidades vêm sofrendo há tempos, pelo baixo investimento da gestão pública. Como resultado, a mobilidade urbano em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, é um grande gargalho.

O ápice disso, acorreu em 2013, como as manifestações de julho, também, conhecida como “passe livre”. Apesar da grande mobilização de jovens em todo o país, houve poucas mudanças de lá para cá.

A relação carro e poder

O Horário de pico, ruas e avenidas, retratam uma triste radiografia, do comportamento social. Por um lado, ônibus lotados de pessoas, disputando centímetros, em busca de uma viagem mais confortável. Por outro, milhões de carros enfileirados, como em marchas fúnebres, sendo regido pelos semáforos. Esses, por sua vez, ditam o tempo, o ritimo e, quem pode ou não passar.

Imagem: Pixabay

Dentro dessa perspectiva, do ônibus, passageiros apertados como sardinhas enlatadas, percebem o automóvel, como um objeto de desejo a ser conquistado, aquilo, que o coloca em outro estatus. Ou seja, a metamorfose de uma sardinha enlatada, para um tubarão dentro de sua piscina locomotiva.

Em um dos seus ensaios, o antropólogo Roberto Da Matta, professor da PUC-Rio, descreve como o carro se tornou um objeto de distinção, “O automóvel é uma opção que está em harmonia com o estilo aristocrático de evitar o contato com a peble ignara, o povo pobre, chulo e comum”, e observa,”Os comportamentos bárbaros no trânsito resultam menos de questões de obras e melhorias materias que do fato de que todos se sentem especiais, superiores e com direitos a regalias e prioridades que justificam o desleixo e a impaciência para com a norma geral materializada num sinal e numa faixa de pedestres”.

Já, o transporte coletivo por sua vez, é algo, que iguala as pessoas, e retira das pessoas, uma busca pela valorização das hierarquias, como descrito por Marcos Sávio, historiador e professor da UFU, “O bonde, por exemplo, era visto como um meio ‘inadequado’, já que colocava, lado a lado, membros de classes separadas que sempre se segregaram”.

Ou seja, pensar em mobilidade urbano, é ter um olhar com foco na democratização das relações humanas, bem como, perceber o outro, como um ser de direito, de ir e vir, independente do meio de transporte, ter dignidade e mais qualidade de vida.

Fontes: Tulio Kengi Malaspina, Marcos Sávio e Roberto Da Matta.

Por: Davi Sant Anna 134 Artigos Contato
Formado em psicologia, e pós-graduando pela COGEAE - PUC-SP. Trabalhou por 18 anos no SENAC São Paulo, nas áreas de administração, e na coordenação de pós-graduação em gestão, turismo e gastronomia.Escreve sobre comportamento, educação e estilo de vida.