CONTOS DO CIDÃO nº2 | Troquei a bossa nova pelo rock

Depois de viver a vida inteira, se descobre que, há muito para se viver! Conheça a historia do velho Adamastor, um sexagenário, que trocou sua pacata vida, pelas aventuras e atitudes bem rock’n’roll

Me chamo Adamastor, trabalhei por muitos anos na mesma empresa, acompanhei todos os avanços tecnológicos, do telegrafo ao e-mail, há dois anos me aposentei, formei minha família, não tão perfeita, tive três filhos e cinco netos.

Não tem nada mais foda nessa vida, do que essa tal de terceira idade, alguns mais entusiasmados chama de “melhor idade”, mas que foda é isso!

Faça pelo ao menos uma coisa que realmente vale a pena em sua vida

Me acostumei a levantar cedo, ainda me esqueço e vou até ao guarda-roupa pegar meu paletó, mas o sonho de continuar jovem é jogado por terra, quando minha esposa com sua voz baixa, me interrompe..ops! já na trabalho mais, como poderia esquecer disso, agora estou fadado a contar os dias, ou ficar em uma praça suja próxima de minha casa, esperando outros velhos como eu, para compartilhar um jogo de dominó, espaço com mendigos, prostitutas, policiais truculentos e animados garis varrendo a sujeira sobre nossos pés.

A vida é doce e depressa de mais!

Quanta saudade do estresse e da minha mesa cheia de papeis amontoados e compromissos atrasados de um dia rotineiro em um escritório de contabilidade, mas tudo isso é só passado, hoje minha vida é uma canção de bossa nova, ao fundo uma cena de novela passada no Leblon, mas quem dera eu ser um daqueles galãs de novela, que tem a feliz sorte de sempre comer a ninfetinha, que se apaixona pelos cabelos grisalhos e o charme de um ator na terceira idade.

Confesso que sempre fui um pai daqueles bem chato, implicava com meus filhos, principalmente o caçula, apaixonado por um tal de rock, colecionava diversos disco, admiravam seus ídolos, tão rebelde e cheios de atitudes como ele, para mim, aquilo soava como unhas arranhando azulejos…

Olha só eu aos 65 anos, troquei a bossa nova pelo rock

Mas olha eu aqui, nos meus 65 anos de vida, sem nada pra fazer, desligo a TV, pois os programas que passam a tarde, são depressivos demais, ligo meu aparelho de som e começo a ouvir minhas bossa nova, de repente sou levando para próximo de uma praia, estou longe de tudo, apenas ouvindo uma bela canção brasileira.

Subitamente três falhas cardíacas, me levam ao chão, desesperado, meu neto caçula, foi pegar um medicamento qualquer, no desespero, ele pega um comprimido de eastase, achando que aquilo poderia me salvar…

Como pude desperdiçar 65 anos de minha vida ouvindo apenas bossa nova, de uma hora para outra estava em um mundo cheio de cores, tudo era muito rápidos, meu coração agitado, impulsionava um corpo que descobriu, de um jeito diferente, o que era rock and roll.

Comprei uma motocicleta, fiz duas tatuagens, fui a um festival, gritei, delirei…

Sobre o Autor:

Cidão é um cara misterioso, que transita entre pensamentos, realidade e muito rock. É um cara das antigas, mas não um velho, apesar de escrever todos suas crônicas e poesias em uma antiga maquina de escrever, ele diz que isso aguça seus pensamentos, e o som das teclas, lhe faz lembrar do tic e tac do relógio, da angustia do tempo, e que não pode ficar parado.

Como ele mesmo diz, seus prazeres são coisas simples: mulheres, acender um cigarro depois do almoço, sentir o aroma do café, conversar na mesa de um bar com amigos e ouvir o bom e velho rock.