Crítica do filme “Milk – A Voz da Igualdade”

Escrito por: Elton Almeida: Harvey Milk foi uma importante figura na militância pelos direitos dos gays e pela igualdade entre heteros e homossexuais. Sua luta, nos anos 1970, foi decisiva para o avanço do movimento pela defesa dos homossexuais nos EUA.

Resenha e análise do filme Milk – A Voz da Igualdade

O filme começa apresentando Harvey como um homem de meia-idade, com trabalho burocrático em Nova York, decepcionado com sua vida, da qual ele não diz não ter feito nada de significativo.

Com o incentivo de seu namorado, Scott, e cansado de sua vida “no armário”, resolve-se mudar para São Francisco e lá, juntamente com Scott, abre uma pequena loja de revelações fotográficas.

Logo, a loja de Milk começa a atrair vários homossexuais e, desde então, inicia-se uma luta pela conquista de espaço pelos gays. Estes acabam “dominando” a rua do Castro e passam a ter cada vez mais participação na vida da cidade. Acompanhamos então, toda a trajetória de Harvey e daqueles ligados a ele.

Gus Van Sant não faz aqui uso da linguagem alternativa e experimental aplicada em ElefanteÚltimos Dias e Paranoid Park. Tampouco segue a linha convencional e contida de Gênio Indomável.

Crítica do filme Milk – A Voz da Igualdade

É interessante ver como o cineasta mescla essas duas estéticas, resultando num filme de linguagem tradicional com elementos experimentais e ousados.

Também acrescenta a esses fatores, elementos da linguagem documental. Essa estética híbrida está presente não só nos planos, enquadramentos, seqüências, mas também na forma como conduz a trama.

A proposta de Van Sant funciona perfeitamente, resultando num filme que manifesta aquilo que vemos em sua trama: a seriedade e importância da militância gay e da vida política do protagonista, o estilo de vida de Milk e seus amigos do Castro, totalmente diferente da chatice e das convenções da sociedade da época, além da função de manifesto pelos direitos civis dos gays atualmente, função marcada pelos elementos documentais.

O diretor ainda consegue criar belos planos e de extremo significado, além de garantir um bom ritmo ao filme e tratar tudo de forma extremamente sensível, compreensiva e humana.

Quando a câmera depara-se diante de cada ator, de cada situação, aquilo que é registrado, é feito-o de forma compreensiva, delicada, sem fazer julgamentos errôneos – o personagem Dan White, por exemplo, não é tido como um personagem unidimensional, malvado e pronto. Muito pelo contrário. Mais um acerto de Van Sant e do roteirista, foi não escalar uma atriz para interpretar a maior antagonista dos direitos dos homossexuais.

Assim como em Boa Noite, Boa Sorte, a pessoa opressora é apresentada através de vídeos de arquivo, mostrando a pessoa real.

E aqui, cabe ressaltar os predicados do roteiro de Dustin Lance Black. É um roteiro que, nos primeiros minutos, parece um pouco perdido, deslocado e não muito satisfatório ao amarrar as cenas e criar relações entre os fatos, mas que, logo depois, deslancha.

Cria brilhantemente cada personagem e trata a elas e a suas relações de forma realista, convincente e humana. As personagens são sempre bem delineadas, bem desenvolvidas e donas de evoluções naturais.

Os diálogos e situações também são pontos fortíssimos e fortalecem o roteiro.

Sean Penn é um dos fatores que fazem de Milk um grande filme. Um dos melhores atores de sua geração – se não o melhor – Penn não apenas cria uma figura de Harvey Milk, mas mergulha no personagem, constrói um ser humano, compreende suas atitudes, sentimentos, objetivos e consegue manifesta-los.

Não oferece um retrato banal de um homossexual engraçado e afeminado. Os trejeitos de Milk não são imitados por Penn, são reproduzidos, pois o ator consegue compreender de tal forma o personagem, que desenvolve as características do personagem. Da mesma forma, Penn transmite toda a verdade e convicção dos discursos do ativista.

Mas além de Penn, Milk conta com coadjuvantes de luxo, que exibem performances extremamente inspiradas e trabalhadas. James Franco surpreende no papel de Scott, ao construir de forma verdadeira o personagem, bem como seu envolvimento com Milk. Josh Brolin, Emile Hirsch e Diego Luna também esbanjam talento.

A direção de arte do filme, juntamente com a produção e os figurinos, são louváveis em sua reconstrução da São Francisco dos anos 70, recriando não apenas as características físicas do local, mas também toda a aura que havia naquela época e naquele lugar. A fotografia, lindamente granulada, também recria essa época e seu espírito.

Resumo do filme Milk – A Voz da Igualdade

Em suma, além de ser uma grande realização cinematográfica, Milk é uma arma de defesa dos direitos dos homossexuais e chama a atenção para o preconceito e a discriminação que essas pessoas sofrem.

O filme tenta mostrar aquilo que a grande maioria das pessoas, tão cegas, ignorantes e preconceituosas, não consegue ver: que os homossexuais são iguais a todos, tem os mesmos direitos e não devem ser tratados de forma pejorativa e/ou agressiva.

Sexualidade não é opção e sim condição e diz respeito a cada pessoa e não aos outros. A sexualidade de uma pessoa, assim como sua cor de pele, seu credo, sua condição social, sua região, seu sexo, não faz dela melhor ou pior.

Enquanto continuarmos a tolerar os preconceitos contra os gays, desde piadinhas até ofensas sérias, continuaremos a criar um monstro em nossa sociedade.

Hoje, muita gente não se revolta quando negros são discriminados? Quando mulheres são discriminadas? Ora, porque com os homossexuais seria diferente?

Está mais do que na hora de as pessoas caírem em si, pararem de usar a religião como ferramenta de afirmação de seus preconceitos, pararem de se preocupar com a vida alheia e aceitarem as pessoas por aquilo que elas são como seres humanos e não por aquilo que elas fazem com sua vida sentimental. Harvey Milk não lutou a toa. Harvey Milk não morreu a toa.

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