Doa a quem doer: É aí que está o grande X da questão

O Facebook está chato. As redes sociais estão chatas. Só se fala de política, direita, esquerda, mimimi, nhenhenhém, blábláblá etc… Mas há algo que acontece em momentos de eleição que eu acho admirável, e que hoje, com essa tal polarização, está muito mais evidente. Repare.

Primeira a ficar exposta como uma fratura sangrenta é a nossa vulnerabilidade lógica. Admitimos – por confortável anuência ou determinação condicionada, que precisamos ser governados por alguém. Aí então vem o candidato e se coloca no papel do mito do herói, aquele que salvará toda a nação da injustiça e trará prosperidade.

Então escolhemos um e o alçamos à condição de líder supremo que, pelos próximos quatro anos (ou menos ou, Deus nos livre, mais) fazendo exatamente a mesma coisa que todos os heróis depostos fizeram em seus mandatos: a manutenção do sistema que sempre vivemos, a beira do caos. E se isso não fosse verdade, não haveria um só cidadão que discordaria de um governo que realmente foi bom.

Mas a culpa de uma má performance de um determinado governo não é do fracassado herói em si. Há algo de errado nas engrenagens principais que ficam no coração do motor dessa grande máquina social que vivemos e não importa quem esteja “lá”, não a fará funcionar pra valer. E esse conjunto de engrenagens mal azeitadas e oxidadas somos nós.

Isso fica evidente pra quem se propõe a guiar um carro pelas ruas da cidade ou pelas estradas.

O trânsito é uma convenção social, com órgão regulador (Detran) e regras claras de conduta e convivência. Para guiar um carro, é necessário fazer aula, ler, praticar, conseguir uma licença e estar atento às regras de conduta justamente porque não é só você que tem um carro. Há outros carros, pessoas, ciclistas, postes, animais, árvores e por aí vai.

Mas eis que você vê o Chiquinho guiando seu carro – um carrão, aliás – trazendo no vidro traseiro um enorme adesivo do seu candidato a deputado, com o número grande para todos verem, uma frase esperançosa de mudança e o candidato que ele apoia para o governo e presidência. Chiquinho está dirigindo a 80 quilômetros por hora em uma via qual o limite é 50. A via está congestionada, mas Chiquinho invade a faixa exclusiva para ônibus em horário impróprio e acelera para, próximo ao radar, ligar a seta e forçar entrada com seu carro entre outros que estão aguardando há horas no congestionamento para chegar até aquele ponto. Mas a pressa é justificável, Chiquinho está atrasado para a reunião do comitê onde seu candidato palestrará sobre ética e boa conduta social.

Chiquinho está convicto de sua condição de cidadão de bem, incorruptível e que está fazendo sua parte para o bem da nação…

Não é a paixão pelo futebol que nos torna brasileiros. Nem ter nascido sobre este solo tropical. Assim como não são os olhos puxados que faz de alguém japonês, ou cabelos loiros faz de alguém Europeu. O que torna um grupo de pessoas uma tribo, uma nação, é a sua identificação cultural, são os hábitos coletivos e sociais compartilhados que sabemos inerentes e podemos prever e contar.

Se você pedir algo para um japonês, você sabe que ele fará da melhor forma possível aquilo a que se propôs. Se você marcar um encontro com um inglês, você sabe que ele não se atrasará, e se você estiver dirigindo pelas ruas de São Paulo, mesmo se o sinal ficou verde para você, você vai esperar alguns segundos para sair com o carro, pois você conta que alguém atravessará o sinal vermelho.

Nossa cultura está na autoindulgência que temos com as pequenas corruptelas diárias que cometemos, crentes de que isso não traz mal algum para ninguém, sem perceber que cometemos pequenas corruptelas porque temos a oportunidade de cometê-las. A cada maior oportunidade, maior nosso autoindulto. É essa a essência que nos torna brasileiros.

Faça um experimento: Tente andar em uma rodovia dentro do limite de velocidade e veja centenas de carros passando por você como se você estivesse parado, mas guie pela pista da direita (convencionada lenta) e, mesmo assim, enormes caminhões e outros veículos “colarão” na traseira do seu veículo acionando faróis altos e pisca alertas para você sair do caminho. A agressividade do brasileiro para com aquele que está cumprindo as regras é bizarra.

E é exatamente por essa razão que pessoas que não corroboram com esse comportamento (a)moral tipicamente “brasileiro” se sentem tão desencaixados nesse lugar, tão estrangeiros dentro de seu próprio território natal. Eles preferem se isolar a se relacionar com pessoas a qual não guardam a menor identificação e só saem para o mundo obrigados pela necessidade de sobrevivência.

Por isso, quando os candidatos oferecem soluções fáceis para os problemas que observamos por aqui, eles estão apenas alimentando essa brasilidade cultural inconsciente que macula nosso peito. Eles se aproveitam de nossa vulnerabilidade e inabilidade de autoanálise, nossa incapacidade de identificar em nós mesmos as incongruências que nos impedem de sermos definitivamente sociais, que é a capacidade de auto censura quando uma possibilidade de levar vantagem indevida se coloca à nossa frente, seja ela cortar o trânsito pelo acostamento ou receber dinheiro para dar um “jeitinho” naquela licitação.

Temos que abolir essa prática que torna o fato de “ser brasileiro” tão nojento e perceber aquilo, dentro de nós, que colabora para que esse país seja tão hipócrita.

Proponho e conclamo as pessoas conscientes de seus atos falhos e de suas imperfeições, mas dispostas a se autoavaliarem a tentar, em si, extinguir essas práticas culturais típicas brasileiras e formarem uma Nova Nação, um Novo País, um Novo Brasil.

Sei que isso não acabará com todos os problemas instantaneamente, mas acredito que existe um caminho e esse é certamente o primeiro passo. #souumanovabrasileira #souumnovobrasileiro.

Ademais, sobre as eleições e seus candidatos, já que você chegou até aqui nesse enorme texto (poucos chegarão), gostaria que fizesse um exercício comigo…

Imagine o Brasil daqui a 50 anos. Mas não imagine um futuro distópico, seja positivo. Imagine um Brasil onde você gostaria de viver com seus filhos e netos. Pense em como gostaria que fosse a Saúde, a Educação, as ruas, a Natureza, a Segurança Emocional, Financeira e Física. Pense no mundo que você quer viver.

Agora reveja seus candidatos. Suas propostas estão alinhadas com esse futuro? É para esse lugar que estes candidatos nos levará? Ou suas propostas oferecem apenas mais caos? Mais separação? Mais conflitos?

É aí que está o grande X da questão…

Por: Denis Rodrigues 3 Artigos Contato