Em uma conversa confessional e honesta, entrevistamos Denis Rodrigues Molina, jornalista de formação, e músico de alma. Ele é um dos pioneiros do universo digital brasileiro, que empresta o seu olhar sobre nossa contemporaneidade.

Essa entrevista, faz parte de uma série de entrevista em que o NowPix convida artistas, intelectuais e influenciadores digitais a abordar temas sobre a contemporaneidade pós-pandemia.

O mundo pós-pandemia com Denis Rodrigues Molina

Na conversa de hoje, vamos entrevistar um dos pioneiros, do que hoje é chamado de digital influencer. Trata-se de Denis Rodrigues, músico e formado em Jornalismo, atuou no mercado publicitário e no desenvolvimento de conteúdos para sites. Sua larga experiência com mídias on-line vem dos tempos como editor e fundador do site Bravus.Net, que fez história na internet brasileira.

NowPix: O biólogo e pesquisador brasileiro, Atila Iamarino, vem afirmando em suas entrevistas que ‘O mundo nunca será o mesmo’. E, para  você, quais são suas expectativas?

Denis Rodrigues: Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Olhamos para os livros de história buscando referências de como a humanidade se comportou durante outras catástrofes – e no que ela se transformou depois, com esperança de encontrarmos algum comportamento transcendente. Mas pensando de uma forma mais abrangente, eu não acredito que melhoras significativas ocorrerão.

Claro que vamos tirar algumas lições dessa situação. Porém, somos bicho. E como qualquer bicho diante de um trauma, ficamos acuados durante um tempo, evitando riscos.

 Esse evento mundial poderia ser um marco na história da humanidade. O rebanho humano está doente e se os países e sociedades ao redor do mundo estivessem organizados de uma forma a que o Ser Humano e a Vida fossem prioridades, poderíamos assistir a esta mudança que todos desejamos. Mas a própria estrutura das sociedades não permitirá que grandes mudanças estruturais ocorram, logo sentimos o peso do preço que temos que pagar para viver. Com o tempo, tudo voltará a ser como antes da pandemia.

NowPix: Você também é conhecido por ser um grande cronista, em alguns dos seus textos ou ensaios, passou a ideia que viveríamos uma pandemia ou algo parecido?

Denis Rodrigues: Como todo introvertido, sempre me comuniquei melhor pela palavra escrita, mas acho que nunca

tive essa habilidade ou envolvimento com as palavras a ponto de conseguir, por exemplo, escrever um livro, por mais que quisesse. Nos meus textos eu sempre fui um tanto distópico, fiz muitos ensaios sobre como nosso modo insustentável de existência poderia se voltar contra nós mesmos. Vemos eventos climáticos extremos e as pessoas cada vez mais iludidas, procurando culpados pelos problemas ou soluções de curto prazo, quem sabe um herói crístico que chegará e resolverá tudo e salvará a todos.

Eu olho para todo esse caos social velado que vivemos e tiro farta matéria-prima para escrever textos e compor músicas, imaginar histórias. Mas quando especulamos sobre o futuro da humanidade, a ideia é sempre catastrófica. Não tem como isso dar certo. Mas acho que como cronista cometi muitos erros. No Bravus, eu tinha acabado de me formar em jornalismo, então tinha a coisa da imaturidade somada à vaidade intelectual. Acabei prestando muitos desserviços em nome dessa vaidade.

NowPix: O que você está fazendo para manter o equilíbrio?

Denis Rodrigues: Eu tenho feito isso. Pegando essa matéria-prima, misturando com meus sentimentos e dando forma, transformando em uma terceira coisa, que não é nem eu, nem o mundo. É muito terapêutico porque eu sempre fui uma pessoa muito sensível. Tudo sempre me afetou com muita intensidade. Então eu transformo tudo em alguma coisa mais tolerável.

Eu tenho um gravadorzinho em casa, então fico compondo. Às vezes me arrisco a mandar uma ideia para algum amigo musicista e acabamos fazendo músicas colaborativas, eu da minha casa e eles da casa deles.

créditos: Denis Molina

NowPix: Mesmo não atuando mais com mídias online, como você percebe o atual cenário da sociedade brasileira nas redes?

Denis Rodrigues: Eu vejo as redes sociais como uma continuidade mais democrática da blogosfera dos anos 2000. Todos podem compartilhar conteúdo, ideias e arte.

Na época dos blogs, qualquer um podia fazer um blog, mas era mais complicado: Você tinha que pensar em qual plataforma usar, linha editorial, conceito, design, cativar leitores, manter uma regularidade. Nas redes sociais você simplesmente se cadastra e pode compartilhar conteúdos ou só observar.

O grande problema que vejo nessa cultura online não diz respeito às plataformas das redes sociais, mas ao ser humano que a utiliza. A empatia não é uma qualidade valorizada em nossa sociedade.

NowPix: Além do jornalismo, você tem uma longa experiência com a música, poderia nos contar um pouco sobre isso?

Denis Rodrigues: Aprendi a tocar violão com 15 anos, tive uma banda de rock e sonhei seguir carreira, mas não deu certo. Acho que a música foi responsável por muitas decisões minhas na vida.

Estudei Propaganda e Marketing pensando em utilizar como ferramenta para a música. Depois estudei jornalismo pensando em trabalhar com música. Até os 30 anos, mais ou menos, sonhei com uma carreira musical. Mas depois vi que pra mim não ia rolar, então comecei a me dedicar a conceitos não comerciais de música.

De certa maneira, mantenho o mesmo discurso dos textos nas músicas, porque é a minha posição mental, é a minha perspectiva de mundo. Meus textos são reflexivos, não são engraçados ou agradáveis, são pesados, são dolorosos… por isso nunca tive tantos leitores, e também ouvintes.

NowPix: Ainda dentro desse assunto, quais são suas músicas de cabeceira, e se tem descoberto novos artistas?

Denis Rodrigues: As vezes eu me deparo com uma banda e fico extremamente envolvido com seu trabalho e não paro até conhecer todo o trabalho dessa banda. Foi assim com Radiohead. Mas agora eu tenho me lançado mais na música nacional. Ouço muito de Mateus Aleluia e Lenine, duas influências marcantes.

NowPix: Apesar de ser o estilo musical com forte penetração junto a população brasileira, o funk ainda é muito descriminalizado. Como você vê o atual cenário da música brasileira?

Denis Rodrigues: Acho que toda música tem seu espaço e sua função. Algumas são para dançar, outras para refletir, outras para protestar, esquecer, curtir. O Rock, quando surgiu, foi alvo de críticas, chamado de música delinquente pelos conservadores. Hoje, os roqueiros são os conservadores chamando o Funk Carioca de delinquente.

Todo estilo quando surge e representa uma ruptura de geração, é atacada (principalmente) pelas gerações anteriores. Mesmo a Bossa Nova foi criticada na época que surgiu. Claro que tempo o Funk que toca nas comunidades e o funk que toca na globo, mais domesticado. Com o rock é assim também, você tem as bandas que tocam nos becos da Augusta e as bandas que tocam na novela.

NowPix: O Rapper Criolo diz “Não existe amor em SP”, você concorda?

Denis Rodrigues: Acho que eu não tenho competência para responder essa pergunta. Eu sou uma pessoa muito magoada e essa mágoa fez eu me afastar cada vez mais de todo mundo. Quando eu andava por aí me socializando, via as pessoas muito ensimesmadas, e eu também. Acho que isso é o inverso de amor. Amor é a capacidade de perceber o outro. Vê-lo. Ouvi-lo.

créditos: Denis Molina

NowPix: Qual a importância da leitura em sua formação, qual livro ou livros você indicaria para nosso público?

Denis Rodrigues: Eu sempre gostei de ler, desde pequenino toda semana pegava livros da série Vagalume na biblioteca da escola. Como eu era uma criança retraída, considerada estranha, a leitura foi minha principal companhia.

Vou sugerir dois títulos e um documentário que expandiram meus horizontes e, de quebra, justificam muito do que eu escrevo:

  • A Política | Aristótelesdomínio público | é um livro que nos lembra o que é e para que serve a política (Spoiler> não tem nada a ver com o que os políticos atuais faze);
  • Buda – Breves Biografias |Karen Armstrong | É um histórico e não litúrgico, mas foi responsável por me fazer repensar tudo o que eu achava que sabia sobre a existência. É um livro doloroso, mas para quem estiver interessado em se reinventar, é uma boa pedida;
  • E o documentário é O Fim do Sonho Americano | Requiem for a American Dream – Noan Chomsky| que, de forma magistral, quebra a imagem ilusória que acreditamos ser profundamente sólida: A construção da sociedade tal qual como ela é hoje. Sabe a pílula vermelha que Morpheus oferece para Neo em Matrix? Então, a pílula é feita desses dois livros e do documentário.

NowPix: O que gostaria de deixar em suas considerações finais aos nossos leitores?

Denis Rodrigues: Bem, o teor das minhas manifestações pode parecer negativo a princípio. Estou completamente ciente disso. Mas isso não significa que eu seja uma pessoa pessimista. Como disse Lacan, quando a gente nasce, o mundo está pronto. Nascemos no meio de um diálogo que já existia antes de nascermos e continuará existindo depois que morrermos. Passamos quase toda parte da nossa vida aprendendo sobre e alimentando esse grande diálogo. Mas esse diálogo está repleto de competitividade, de excesso de ego, de julgamento e humilhação.

Estamos tão envolvidos com esse diálogo que não conseguimos ver mais nada.

Eu sugiro que iniciemos um novo diálogo. Menos agressivo, mais empático. Eu sei que isso requer abrir mão de muitas coisas que construímos no diálogo atual, principalmente no que diz respeito à identidade que desenvolvemos. Mas, nesse ponto, eu sou otimista. Essa é a bandeira que eu levanto.