O Encontro Marcado: o ultimo de nossas vidas!

Sentia-me deitado em um banco no jardim em dia de primavera, todos ao meu redor me velando, aquela cena me causou um desconforto, pois também estava ali velando um corpo que não respondia mais as minhas vontades e preces.

Fina ironia da vida reunir velhos amigos de infância que o tempo cirurgicamente afastou. Pardal, Andorinha, Cordona e Colibri.

Pardal era o mais falador da turma o que compensava sua dificuldade de intelecto, mais isso não o diminuía, sempre alegre e fazendo piadas de coisas sem sentidos, apenas pelo simples prazer de nos fazer gargalhar, gostaria de saber o que se passava em sua cabeça neste momento de eterno silencio. A vida não foi ta generosa com Pardal, não conseguiu um emprego fixo, vive na dependência dos pais, casou-se por três vezes e em nenhuma foi bem sucedido, a ultima fugiu com o faxineiro do condomínio onde acabara de ser despejado.

Cordona, tempos mais tarde soube que sofria de psicoses, mas sempre o vimos como um moleque imaginativo, criando naves invisíveis e com seu amigo imaginário chamado Bil, afinal quem nunca teve um amigo imaginário? Cordona sempre viveu os dilemas da vida, era o mais novo da turma, sempre se metia em confusões para que nós os protegesse, muitas vezes avistei Cordona com seu corpo encolhido no canto de sua varanda chorando e ouvindo os berros e palavras chulas emitidas pelos seus pais em mais uma noite de brigas do casal**

Androrinha, o defino como o dono da bola, foi aceito no grupo porque tinha muitos brinquedos e poucos amigos, seu pai sempre disse que ele era o melhor, é incrível como a palavra de um pai determina o destino de um filho! Cresceu continuando sendo o dono da bola, muitos bens e poucos amigos, foi o primeiro a se afastar do grupo, construiu uma sólida carreira como assessor político em Brasília, só não sei se ele é feliz, mais nessa altura da vida, ou melhor da pós-vida, não vou filosofar sobre felicidade ou existencialismo.

Sempre quis reunir novamente meus amigos, sempre disse que Deus escreve torto em linhas retas e aqui estamos reunidos, os risos e alegrias surgiram na memória de cada um, mesmo em silencio contemplativo Pardal, Andorinha, Cordona e Colibri refletiram sobre suas vidas, suas idas e vindas, a responsabilidade de cada escolha e encarar que aquele momento foi o ultimo de nossas vidas!

Essa não é uma historia triste, pois o que levamos dessa vida, é a vida que se lava. Levarei os últimos momentos com os meus amigos que voltaram a serem novamente pássaros e cantaram em coro “ Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo…temos todo o tempo do mundo…”

Cultura

Sentia-me deitado em um banco no jardim em dia de primavera, todos ao meu redor me velando, aquela cena me causou um desconforto, pois também estava ali velando um corpo que não respondia mais as minhas vontades e preces. Fina ironia da vida reunir velhos amigos de infância que o tempo cirurgicamente afastou. Pardal, Andorinha, … … Continuar lendo