São Miguel Paulista – A História de um povo que quase se tornou cidade

A história de São Miguel Paulista se confunde com a história do Brasil em diversos momentos cíclicos, que vão do Brasil colônia, passando pelas lutas democráticas em plena ditadura militar e vislumbrando o grande desenvolvimento econômico atual.

A História de São Miguel Paulista

Como toda boa historia, ela precisa de uma mistura de fé, pessoas corajosas, momentos críticos e uma pitada de polêmica.

E a primeira grande polemica surge logo na divergência sobre o ano de sua fundação, tendo como elemento central o seu mais ilustre personagem, a Capela de São Miguel Arcanjo, que também emprestou ao bairro o seu nome.

Para alguns historiadores, a fundação da cidade foi no ano de 1580, ano em que o padre José de Anchieta e índios guaianases começaram a construir a Capela de São Miguel, já outros historiadores alegam que a fundação de São Miguel Paulista foi no ano de 1622, ano de finalização da construção da capela, divergências a parte, a data oficial de fundação de São Miguel Paulista é 21 de setembro de 1622.

São Miguel Paulista, dos índios a uma mistura de povos e cultura

Quando os jesuítas chegaram nessas terras à margem do rio Tietê , a região era habitada por aldeias indígenas, os guaianases, que chamava o local de Aldeia Ururaí (nome indígena que significa “terra dos lagartos”)

Os índios estiveram presentes nos primórdios da formação de São Miguel Paulista, servindo de mão de obra na construção da Capela de São Miguel ( ou Igreja dos Índios), elem de oferecer sua cultura, culinária e nomes para diversos bairros da zona leste como Vila Curuçá, Itaquera e Guaianases propriamente dita.

Apesar de não haver mais tribos e nem índios na região, ainda é possível encontrá-los nas misturas de raças que constituíram o povo brasileiro.

Mapa das capitanias de São Vicente no período de 1553 a 1597, Acervo CPDOC São Miguel / Autor desconhecido

Mas como surgiu São Miguel Paulista

A historia de São Miguel começa com a extinção de outra vila, a Vila de Santo André da Borba do Campo, após ser extinta, obrigou seu moradores a mudar-se para a Vila de Piratininga, porem alguns índios assustados vieram para o lado leste, onde hoje é São Miguel Paulista.

Preocupado com a situação dos índios da região, o padre José de Anchieta, resolve fazer uma visita no ano de 1560 (ano este defendido pela doutora em história Roseli Santaella Stella, como a fundação de São Miguel), com o objetivo de retomar a evangelização dos índios guaianases chefiados por Piquerobi, irmão de Tibiriçá, forma-se aqui um núcleo para a catequização, surgia então a Aldeia Ururaí.

Aproximadamente vinte anos mais tarde no ano de 1580 erguia uma capela provisória, sendo esta substituída em 1622 pela atual Capela de São Miguel Arcanjo, dando inicio ao povoamento de toda a região.

Capela de São Miguel Arcanjo – 2012

A primeira reviravolta em sua história

Situado em um ponto estratégico e com grande prestigio junto a coroa portuguesa, com a qual estava subordinada diretamente sem a intervenção da Câmara de São Paulo, relação esta que provocou grandes conflitos, uma delas estava ligada diretamente aos jesuítas que defendia a permanência dos índios em detrimento de sua saída para exploração de outras regiões.

Uma luta perdida, pois houve uma retirada maciça dos índios da região e de toda São Paulo, que viu sua importância enfraquecida diante do reino.

Após essa briga dos jesuítas em defesa aos índio, sua missão em terras brasileiras, não foram vistas com bons olhos, por sua vez, os mesmos foram espulsos do Brasil, dando lugar as missões assistencialistas dos franciscanos.

Nascia assim, uma nova população predominantemente branca, que reformula a antiga capela e muda a historia de São Miguel Paulista.

A segunda reviravolta em sua história

Após anos de estagnação ocasionados pelo distanciamento do centro de São Paulo, falta de um transporte viável, investimentos públicos etc, São Miguel renasce das cinzas com a surgimento a empresa Nitro Química, que trás para região progresso, riqueza e expansão populacional, São Miguel Paulista, novamente voltava a ser importante.

A terceira reviravolta em sua história – Movimento Popular Autonomista – MPA

Apesar do seu grande crescimento e importância para a cidade de São Paulo, São Miguel Paulista continuava renegada ao segundo plano com poucos investimentos públicos na região, vale lembrar que a primeira linha de ônibus pra o centro, foi inaugurada na década de 1930, a lendária linha Penha – São Miguel.

Com tantos contrastes e uma efervescência intelectual e política aparecendo na região, surge então o Movimento Popular Autonomista – MPA no ano de 1962 em plena ditadura militar.

Esse movimento acontece em um momento que a insatisfação dos moradores de São Miguel atingira o ápice com as promessas de implantação de equipamentos que ficavam apenas nos discursos em época de eleição.

Alem disso a população estava frustrada, pois houve uma tentativa de emancipação do bairro em um plebiscito realizado em 1953, derrotado por motivos até hoje não analisados.

O MPA foi um movimento forte e atuante, mesmo estando em peno período de repressão, mas que não os impediram de realizar 27 comícios, mobilizar os oradores para assuntos como a falta de saneamento básico, infra-estrutura, escolas e hospitais, apesar de derrotados na  Assembléia Legislativa de São Paulo, que votou contra a autonomia de São Miguel Paulista, houve grandes conquistas para a época.

O MPA II – Os Filhos da Resistência

Talvez a maior conquista que São Miguel ganhou depois disso, foi ver em seus filhos, mais atuante e lutando por mais direitos e democracia, surgia assim em 1978 o novo MPA, a mesma sigla, mas junto com os direitos a escola, hospitais e saneamento básico, lutavam também pelo direito a cultura e arte o Movimento Popular de Arte MPA

O novo MPA era composto basicamente por jovens artistas da região como músicos, poetas, escritores, artistas plásticos que se reuniam para mostrar a produção cultural existente na região, com apresentações de shows e teatros, toda essa luta teve um grande fruto no ano de 1985, quando o MPA gravou uma coletânea com músicos do bairro no estúdio da Eldorado.

A São Miguel de Hoje

Guerreiros, resistentes e com vocação para ressurgir das cinzas, assim podemos definir os moradores de São Miguel Paulista, que apesar dos seus altos e baixos, construiu uma rica história que fala de povo que quase se tornou cidade, mas nunca deixou de lutar.

Hoje São Miguel Paulista tem um dos principais centros comerciais da cidade de São Paulo, os netos e bisnetos do MPA continuam fazendo arte, historia e revolução.

Curiosidades sobre São Miguel Paulista

  • Antes de ter seu nome oficial de São Miguel Paulista no ano de 1944, o Bairro se chamou São Miguel de Ururaí e Baquirivú, esse ultimo rejeito pela população, que após protesto, recebeu seu nome atual.
  • Faziam parte de São Miguel Paulista, os distritos de Itaquera, Itaim Paulista, Emelino Matarazzo e Guaianases.
  • Até o ano de 1891, São Miguel paulista pertencia ao distrito da Penha
  • O Cantor Antônio Marcos, artista de grande sucesso nas décadas de 1970 e 1980, nasceu em São Miguel Paulista
  • A Cantora Roberta Mirando, um dos grandes nomes da musica sertaneja, foi moradora da região, sendo vizinha de outro grande nome da musica Hermeto Paschoal.
  • A Região é rica em tesouros arqueológicos, alem da Capela de São Miguel, o bairro tambem conta com o Sírio Mirim e Fazenda da Biacica

Fontes Bibliografica:

Um olhar sobre São Miguel Paulista – Manifestações culturais, ontem e hoje (2008)

Face Leste – Revisitando a Cidade (2011)

Boletim Institucional. Nosso grupo é você. Nitro Química 70 anos: Uma trajetória de sucesso marcada pela competência no passado, presente e futuro. Companhia Nitro Química Brasileira – Grupo Votorantim. 2005.

Por: Davi Sant Anna 134 Artigos Contato
Formado em psicologia, e pós-graduando pela COGEAE - PUC-SP. Trabalhou por 18 anos no SENAC São Paulo, nas áreas de administração, e na coordenação de pós-graduação em gestão, turismo e gastronomia.Escreve sobre comportamento, educação e estilo de vida.