O embrião fantasma de uma década perdida, os anos 80

Para quem viveu a infância ou adolescência nos anos entre 1980 e meados da década de 1990, acredita, essa ser a melhor época da vida. Um tempo que não volta mais, etc.

É muito comum, frases saudosistas sobre os anos 80 do tipo “a década perdida” Não nego, que também engrossei esse couro, de milhares de vozes entoando um passado, que não existia mais.

Diante a face do futuro, que nos apresenta o imponderável, aquilo que foge dos nossos controles, afinal, o mundo quadradinho, que nos foi apresentado, não existe, ou melhor, nunca existiu.

Ao recriar o passado, tudo aquilo que representava os anos 80, era perfeito

Se, o futuro, é algo que foge do controle, recorro ao passado idealizado, transformo em um castelo de areia que nunca ruiu. Coloco cores, onde não existia, e por fim, recolho em meu “mundo encantado”, onde a perfeição é meu norte.

De fato, os anos 80, foi uma década perdida, que buscava a luz do dia, bem como, esquecer os anos de chumbo, que findava. Por outro lado, uma nova juventude, que podia “tudo”, emergia nas garagens da vida.

Para os adultos, as coisas não estavam fáceis. Mudanças econômicas, mudanças de moeda, mudanças de preços. Enfim, a democracia, não renascia da melhor forma, pois e principal mudança, não houve: Ricos, estavam mais ricos, e os pobres, por sua vez, se contentavam com as histórias que viam na TV.

Voltando a juventude. Se, o estado, não era “O Grande Inimigo”, e não tinha, algo pra se rebelar, era preciso, buscar um novo inimigo.

Nas rádios FMs, que entravam em seu auge nos anos 80, o rock, como gênero musical, predominavam.

Bandas cariocas e paulistas se revezavam com seus discursos que misturavam um vazio existencial de “inútil, não sabemos escolher presidentes e pobres paulistas, não é nossa culpa, nascemos já com uma bênção”.

Vivemos e crescemos com tudo aquilo sendo o “status quo”, o que nos normalizavam em uma grande bolha de felicidade.

Mas, era preciso, um novo inimigo, aquilo que, ameaçavam degradar a harmonia da encantada terra do nunca.

O nascimento de uma nova intolerância

Nas grandes é médias cidades brasileiras, pipocavam grupos radicais de jovens que, em nome do rock, pregavam o ódio.

Se, você gostava da banda X, não poderia ouvir a banda Y.  é claro, que usar a camisa de sua banda preferida, era, se sentir integrante de um grupo, isso na juventude, a necessidade da aprovação do outro é importante.

Mas, ai, daquele que ousava usar uma camisa de rock, é não soubesse de cor e salteado, a sequencia das musicas no  último disco daquela banda, além disso, saber os integrantes, data de nascimento, também fazia parte de uma espécie de sabatina.

Quem não sabia, ou fraquejava a memória, diante tanta pressão ou opressão, corria o risco de ser expulso de um grupo, ou mesmo, sofrer violências físicas e morais.

É claro que, como qualquer tipo de doença social, o embrião do ódio e intolerância, nasceu muito pequeno, quase invisível, nas inocentes brincadeiras tipo “Quiz” sobre quem sabe mais.

O embrião, foi tomando corpo, alguns, sentindo um poder, transvestido de conhecimento sobre o outro, afinal, todos eram filhos em alguns grau, da repressão passada.

Cientistas sociais podem associar esse comportamento a Síndrome de Estocolmo:nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade perante o seu agressor.”

O embrião que ficou adulto

É, das inocentes brincadeiras, surgiam conceituação para tudo, de coisas tipo o que era rock, o que era permitido, pessoas não aceitas, preconceitos de cor, raça, étnicas, religiões, regiões, sotaques, bairros, ruas, e tudo que mais podiam imaginar.

Mas, os anos 80, chegava ao seu fim. E, aquela normalidade, que as rádios FMs, propagavam como o gênero musical “normal”, foi perdendo espaço.

Como jovens que éramos, não sabíamos muito sobre mercado, demanda etc. E, coisas como lambada, sertanejo, pagode, axé, e, por fim, o funk, foram chegando.

Não estávamos preparados para todas essas mudanças, era preciso encontrar um culpado. E, em nome de uma “década perdida” e todas aquelas inquisições,  transvestidas de brincadeiras, deram todo um arsenal de preconceitos e conceitos mal formulados, para encontrar um culpado. Afinal, o culpado, sempre são os outros…

Por: Davi Sant Anna 134 Artigos Contato
Formado em psicologia, e pós-graduando pela COGEAE - PUC-SP. Trabalhou por 18 anos no SENAC São Paulo, nas áreas de administração, e na coordenação de pós-graduação em gestão, turismo e gastronomia.Escreve sobre comportamento, educação e estilo de vida.